Nas palavras do crítico musical Simon Reynolds, foi o suicídio do cantor Ian Curtis que deu contornos míticos à carreira do quarteto inglês Joy Division. De fato, a banda conquistou uma perenidade surpreendente para seus três anos de existência, dois discos gravados e um sucesso comercial modesto, se comparado ao projeto seguinte dos membros remanescentes, o New Order.
O Joy Division, claro, foi uma das bandas importante durante o estouro do punk nos anos 70 (mesmo tomando direções musicais distintas da cena de então), mas muito da fascinação das pessoas nasceu do combinação entre o som do quarteto de Manchester - triste, sombrio e angustiante ao extremo - e a história trágica de seu vocalista.
O lançamento de "Control", do holandês Anton Corbijn, e do documentário "Joy Division", do britânico Grant Gee, trata de reforçar o mito. A primeira produção tem estréia em circuito comercial nesta quinta-feira no Brasil e a segunda tem previsão de lançamento na semana que vem.
"Control" é uma cinebiografia que aposta mais na força de suas imagens do que na forma de contar a história. Corbijn, que fez sua estréia como diretor em um longa, é mais conhecido como fotógrafo (fez trabalhos históricos com U2, Depeche Mode e o próprio Joy Division) e videoclipes (em 1988, filmou uma versão especial de "Atmosphere", um clássico da banda de Ian Curtis.
Ele se concentra em colocar movimento a estética que o tornou famoso - o preto e branco, o granulado e a cor de cobalto de suas fotos - e em extrair uma boa atuação dos atores, da experiente Samantha Morton ao novato Sam Riley, que manda bem no papel do protagonista. Todos os intérpretes dos músicos tiveram que aprender a tocar as músicas do Joy Division e reproduzi-las em cena - de uma certa forma, um respeito ao faça-você-mesmo do punk que funciona na tela.
"Control" coloca em primeiro plano os conflitos psicológicos de Ian Curtis e a convivência com ataques epiléticos cada vez mais freqüentes. Deixa evidente também a divisão entre o vocalista interessado em Baudelaire e preso em suas angústias e os colegas de bandas mais interessados na baderna adolescente das turnês e dos shows - uma menção também ao tema clássico da sociedade britânica de interesses da classe média versus interesses da classe trabalhadora.
Já "Joy Division", de Grant Gee (diretor de "Meeting people is easy", sobre uma turnê do Radiohead), traz todos os bastidores da história que foi contada em "Control". Começa com um retrato do cinza pós-industrial de Manchester, a cidade-natal da banda, e desfia todo o processo musical de construção do Joy Division e de destruição pessoal de Ian Curtis.
Muito bem editado e com ótimas declarações de ex-integrantes (o baixista Peter Hook ótimo), o filme de Gee serve também para mostrar que o serviço do Joy Division à música angustiante não se deve só ao papel de mártir inerpretado por Curtis, mas sim também a uma sonoridade que conseguiu ser perfeitamente elaborada para expressar isso